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Coluna › Carreira e Sucesso

Atualizado em 22 de novembro de 2008, às 20h22

O combustível da crise

Por Luís Sérgio Lico

Obama foi eleito e nós aguardamos o mundo voltar ao normal. Não voltará, pelo simples fato que nunca foi o mesmo, após as revoluções tecnológicas e sociais dos últimos 25 anos. Um quarto de século e não mais reconhecemos a rua onde moramos. Mas continuamos, de certo modo enredados por ainda desconsiderar salvaguardas e acreditar em paradigmas quando há, na verdade, paradoxos.

Foram-se os bons tempos do chiclete com banana. No mercado, hoje é dia de crise com laranja, acidez bancária e bolsas com cebolas. Mídias sem filtro e obviedades totais, há muito denunciadas por Kanitz e Delfim Neto. Não devo correr o risco de ser original. Além destes mestres, Sexto Empírico, um milênio atrás, já escrevia contra a arrogância dos especialistas.

Hoje, mais do que antes, algumas coisas não mudaram. Para acalmar a multidão ansiosa, precisa-se de futurólogos para fechar a pauta das seis e chancelar as tendências imaginárias dos mercados voláteis. Todos devem ouvir opiniões frescas no jornal das oito ou a pressão sobe. Precisa-se do diálogo subliminar: cortejos de motorneiros de metrô, acusando pelo alto-falante, os usuários pela baixa qualidade do serviço. Atropelamos a sustentabilidade e agora precisamos regular o freio.

Quanto ao fato estridente destas informações postadas como conhecimento, modificarem sua vida, deixe-me explicar o que ocorre: todo mundo sabe o que dizer e como salvar sua empresa ou seu dinheiro, depois que tudo aconteceu. Todos apontam para onde a enxurrada vai passar e o que você deve fazer para se desesperar melhor. Não entre neste crediário e será mais feliz. Eu garanto!

Lembra-me a brilhante análise de Marx, no 18 Brumário de Luís Bonaparte. (alguém leu? Não? Xii! Desculpe!) Como disse alguém, a explicação foi incrível. Pena que o fato já havia ocorrido e o relato reconstituição da lógica e sincronia entre os acontecimentos, a título de validação da teoria. Estas formações discursivas do opinativo não devem fazer você sentir-se desmotivado. Somente quem já está em dificuldades, especulou em derivativos ou depende urgentemente de crédito para sobreviver, sentirá a ressaca globalizada.

Isto significa que a maior parte da economia, incluindo eu e vocês, absorverão as mudanças. A crise não passa de uma metáfora para descrever aquilo que os especialistas perderam a possibilidade de entender. Naturalmente, por fraqueza de nossas relações com as instituições, economia e estado, os cidadãos poderão arcar com mais impostos e criativas novas taxas de fornecimento de serviços. A grande histeria que se seguiu aos acontecimentos iniciados em setembro foi um alerta para as fragilidades do sistema mundial e para a falta crônica de ética nas operações. Estas e outras lâminas de insensatez e imediatismo ganancioso, alavancaram bancarrotas. Mas, sempre haverá os que saem fortalecidos da tempestade.

Nesta nova configuração das forças mundiais, podemos ter a oportunidade de demonstrar nossas maiores capacidades, entre elas as de inovação, resistência e produção de excelência em inúmeros campos. Temos talentos, criatividade e estrutura. Falta apenas retirar do cardápio estes modelos culturais ultrapassados de gerir empresas, tributos e pessoas, que tudo andará bem. Se ousarmos acreditar em fomentar nosso desenvolvimento através do estímulo ao conhecimento, daremos o salto estratégico que nos levará a liderança mundial em muitos setores, quem sabe, até na política.

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