Lidando com as emoções II

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Ricardo Luiz Marcello

Meus cumprimentos a todos os amigos que vêm acompanhando esta coluna e, também, aos que aqui estão chegando pela primeira vez. Quero dizer que me sinto cada vez mais motivado a compartilhar com vocês algumas das aplicações da Programação Neurolinguística (PNL) na sala de aula.

Estamos desenvolvendo uma série de três textos sobre a importância do controle emocional do professor antes, durante e depois das aulas.

No texto Lidando com as emoções I, aprendemos o que são estados emocionais e como podemos alterá-los, com o objetivo de fazer nossas emoções trabalharem a nosso favor.

Nesta segunda parte, trataremos sobre a postura do professor durante as aulas, com o objetivo de proporcionar uma reflexão sobre a importância da racionalidade em suas atitudes.

Durante as aulas

Lembro-me bem do primeiro dia de aula da minha sexta série. Estávamos felizes por reencontrar os colegas e, também, ansiosos para conhecer os novos professores daquele ano.

O sinal tocou e a aula de matemática estava para começar. Quando a professora, ainda desconhecida, entrou na sala, o silêncio foi geral: todos nós ficamos com muito medo, pois ela era o mau humor em pessoa – desde sua postura, suas expressões faciais, seu olhar, seus gestos até a forma grosseira com que ela se dirigia aos alunos.

Mal cumprimentou a classe, logo ordenou que pegássemos nossos cadernos, pois ela iniciaria a revisão. Nada de boas-vindas ou apresentação pessoal, nada de palavras de incentivo ou um sorriso simpático…

Aquela foi uma experiência inesquecível e, hoje, tenho-a como um ótimo exemplo de como NÃO agir em sala de aula. Será que o professor precisa mesmo bancar o “durão” para conquistar o respeito dos alunos?

Entendo que o professor deva ter plena consciência de suas atitudes, se quiser liderar adequadamente uma classe. Piletti (2004, p. 83) diz que “o comportamento do professor em relação aos alunos é de fundamental importância para que ocorra a aprendizagem”. De fato, se um aluno sente medo do professor, sua atenção estará voltada para a autodefesa, enquanto deveria estar focada no conteúdo a ser aprendido.

O mesmo autor diz, também, que o professor “não é neutro, sem sentimentos, frio e distante. É uma pessoa e, como tal, tem sentimentos, simpatias, antipatias, amor, ódio, medo, timidez, etc”. É verdade que o professor não está livre de ter sentimentos. Ele não é um robô programado para ensinar, indiferente ao que acontece ao seu redor. Mas será que ele deve mesmo expressar todos os seus sentimentos aos alunos?

Piletti responde (p. 93) que uma das qualidades essenciais do professor é a autenticidade. “Professores e alunos são autênticos quando se apresentam como realmente são, sem disfarces, sem máscaras. O professor contribuirá muito para a aprendizagem se for sincero, se assumir seus sentimentos, se se envolver pessoalmente com os alunos. Isto é: o professor pode mostrar-se irritado, se realmente estiver irritado; pode mostrar-se interessado ou não nos alunos numa certa aula; satisfeito ou insatisfeito com o trabalho dos alunos”.

Concordo que o professor deva se envolver pessoalmente com os alunos e ser autêntico com relação ao aproveitamento deles em classe, desde que saiba realizar críticas construtivas. No entanto, se o comportamento do professor em relação aos alunos tem importância fundamental para que a aprendizagem ocorra, será que manifestar sua raiva com gritos, por exemplo, é uma forma interessante de se estabelecer um clima psicológico saudável em sala de aula?

Os professores exercem uma profissão na qual lidam diretamente com pessoas, assim como médicos, vendedores, psicólogos e advogados. Não é conveniente deixar que as emoções afetem seus comportamentos. Não se trata de vestir máscaras ou disfarces, mas sim de agir de forma pensada, inteligente. Quando uma pessoa age baseada em emoções extremas, dizemos que não sabe o que está fazendo e, por isso, passamos a não confiar mais em suas palavras ou atitudes. Passamos a vê-la com outros olhos e associamos a ela sensações de descrença.

É interessante pensarmos na emoção como se fosse um cavalo selvagem. Quando montamos nela (isto é, nos deixamos levar por ela), não sabemos para onde podemos ir. Se não lhe colocarmos as rédeas do controle, podemos fracassar – ou “cair do cavalo”!

Por outro lado, admiramos uma pessoa comedida e sensata, que pensa antes de tomar uma decisão, que mede as conseqüências de suas atitudes. Em nossa cultura, a emoção é freqüentemente contraposta à razão. Enquanto esta é símbolo de intelectualidade, aquela é símbolo de irracionalidade.

Weisinger (1997) explica que as emoções alteram nossa percepção dos fatos e bloqueiam nosso raciocínio, fazendo-nos agir de forma ineficaz e, muitas vezes, prejudicial. Por outro lado, quando utilizamos a inteligência emocional, colocamos a razão para trabalhar e agimos de forma calculada; refletimos nas conseqüências de nossas atitudes e ampliamos nosso horizonte de percepção.

Assim, um professor que queria mais sucesso em sua profissão precisa necessariamente se posicionar diante da classe com inteligência para controlar suas próprias emoções e as colocar a favor de sua prática educacional – e não ficar à mercê delas.

É preciso lembrar que bons comunicadores sabem usar a emoção para se expressarem, mas não se deixam dominar por ela. Para tanto, é preciso habilidade para domar os próprios impulsos de raiva, impaciência, timidez e até mesmo de alegria. Um líder de sucesso saber a hora certa de engrossar um pouco a voz e se tornar mais sério, quando precisa de autoridade; mas sabe brincar e descontrair o ambiente quando a situação assim exige.

Se os alunos não estão motivados, se não conseguem se concentrar durante as aulas, se faltam demais ou sempre chegam atrasados é porque estão envolvidos com coisas mais interessantes do que a própria aula. A culpa não é deles, mas sim do professor, pois é ele que deveria tornar a aula mais interessante e mais atraente para todos. É uma tarefa difícil? Pode ser que sim, mas prefiro pensar que este é o doce desafio de nossa profissão.

Exercitando sua criatividade

Como você reagiria, de forma criativa, diante das situações expostas abaixo?

1) Você está explicando alguma matéria e percebe que um grupo de alunos está desinteressado, conversando. Logo, a conversa contagia os colegas ao lado e o ruído atrapalha sua explicação. As tentativas de pedido de silêncio não funcionam e a classe está totalmente dispersa.

2) Você sugere uma atividade para uma classe constituída de alunos adolescentes. De repente, um dos alunos levanta-se e pergunta em tom desafiador: “E se eu não fizer, o que acontece?”.

3) Você está escrevendo no quadro-negro e, de repente, algum aluno joga um aviãozinho de papel em sua cabeça.

Minha intenção, neste texto, foi promover uma reflexão sobre as atitudes do professor em sala de aula. Convido você a colocar sua inteligência emocional em prática e repensar seus comportamentos em classe. Incentivo-o a usar sua criatividade para inventar novas respostas às situações que costumam deixar você em um péssimo estado emocional.

Estaremos sempre enfrentando novos desafios; no entanto, podemos encontrar, dentro de nós mesmos, todos os recursos necessários para os superar. No próximo texto, o último desta trilogia, falaremos sobre o “depois” das aulas: como o professor pode tirar proveito das aulas ministradas, para se aperfeiçoar cada vez mais.

Referências Bibliográficas

BERNARDES, Sirlei. Acorda Professor – PNL na Arte de Educar. Campinas: Komedi, 2003.
CAPRIO, Frank S.; BERGER, Joseph R. Ajuda-te pela Auto-Hipnose. São Paulo: Papelivros, s.d.
DILTS, Robert. Enfrentando a Audiência. São Paulo: Summus, 1997.
O’CONNOR, Joseph. Manual de Programação Neurolingüística. Rio de Janeiro: Qualitymark: 2004.
O’CONNOR, Joseph; SEYMOUR, John. Treinando com a PNL. São Paulo: Summus, 1996.
PILETTI, Nelson. Psicologia Educacional. São Paulo: Ática, 2004.
ROBBINS, Anthony. Poder sem Limites. São Paulo: Best Seller, 2001.
WEIL, Pierre; TOMPAKOW, Roland. O Corpo Fala. Petrópolis: Vozes, 2002.
WEISINGER, Hendrie. Inteligência Emocional no Trabalho. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

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