2U - Você afirma em um artigo que já houve um tempo em que criticar gerava status. Fale um pouco sobre isso e explique como funciona hoje.
Gisela Kassoy - A crítica que gerava status era a crítica da cautela, que só apontava os riscos e os aspectos negativos dos projetos. Ela era valorizada, pois ajudava a manutenção da situação vigente. Além disso, quem vetava dava a impressão de saber mais, algo como “eu sei onde essa idéia vai chegar”. Há momentos na vida das empresas nos quais é preciso ser pioneiro, arriscar, ser movido por sonhos. Há outros momentos nos quais a manutenção da situação torna-se mais interessante. Quando as realidades externas mudam muito e a concorrência é uma ameaça constante, como ocorre hoje na maioria dos setores, precisamos de mais pioneirismo, mais arrojo, e para isso é preciso ser otimista.
Como o colaborador pode expressar um ponto de vista contrário a uma idéia sem parecer pessimista?
Ótima pergunta. Há duas coisas que tanto as pessoas que querem vender suas idéias como as pessoas que vão julgá-las precisam entender: não há idéia completamente descartável, assim como não há idéia 100% perfeita, ou que não gere algum problema em algum momento de sua implementação. O que está em jogo é o custo-benefício. Se um colaborador for a favor da proposta, mas vê nela alguns riscos e está disposto a avaliá-los e saná-los, não tem como parecer pessimista. Se for contra, mas tiver outras alternativas, também demonstra que está contribuindo. Existem resistências objetivas, mais próximas da realidade, e resistências subjetivas, oriundas do medo da mudança, preguiça etc. Aconselho as pessoas a praticarem um diálogo interno para checarem a origem de suas resistências antes de vetar uma idéia, e aconselho a quem quer vender suas idéias a procurar entender o tipo de resistência que a pessoa está oferecendo.
O otimismo e a criatividade andam juntos?
Juntíssimos. Por definição, tudo que é criativo é novo, ou pelo menos novo num determinado contexto. O novo sempre envolve risco e, para administrar o risco, é preciso uma certa dose de otimismo.
A criatividade não tem limites. O otimismo, por sua vez, quando muito “persistente”, digamos, não pode expressar uma certa alienação?
A criatividade não tem limites, mas a inovação sim. A inovação, segundo definição que gosto muito, de Ernest Gundling, é “uma nova idéia implementada com sucesso e que produz resultados econômicos”. Ela tem, portanto, muitos limites, como os custos de implantação, a capacidade da empresa ou do mercado de absorver a inovação. O otimista persistente, que acredita no seu sonho e na sua capacidade de gerar soluções, mas que também vê e acredita na realidade e nos riscos, não pode ser chamado de alienado. Já o otimista inconsistente pode estar se alienando de fato.
Como ser otimista de uma maneira consistente?
É importante conceituarmos otimismo, ou pelo menos diferenciá-lo de “Complexo de Poliana”. O otimista que contribui para uma empresa ou projeto não perde o vínculo com a realidade nem com as ameaças. Ele apenas acredita que as dificuldades serão sanadas e se esforça para buscar soluções. Conhece aquela historinha dos sapatos? Um fabricante de sapatos manda dois assistentes para um país distante para que eles estudem o potencial do mercado local. Um deles diz “Sem chance. Aqui ninguém usa sapatos”, o outro diz “Grandes chances. Aqui ninguém usa sapatos”. Pois bem, se este segundo assistente achar que basta chegar lá e com alguns pares de sapatos que ele vai fazer fortunas, ele não está sendo otimista, está sendo delirante. O otimista é aquele que percebe o grande potencial de mercado, mas sabe que este mercado vai ter que ser educado a usar sapatos, entender o produto, sentir suas vantagens etc.
Como a criatividade de colaboradores de áreas distantes de um departamento de criação em si pode influenciar no trabalho? E nos resultados do negócio?
As empresas precisam de vários tipos de inovações. Há inovações incrementais, que geram melhorias e que são excelentes para os programas de qualidade e de redução de custos, quando a empresa necessita de muitas pequenas idéias. Ajudam a vender produtos ou idéias, negociar, delegar, ou seja, tudo o que faz parte de nossas habilidades interpessoais, de nosso dia-a-dia. Já quando a empresa precisa de uma grande idéia, estamos falando das inovações de impacto, que quebram paradigmas, que realmente trazem o novo. Estas estão voltadas para o desenvolvimento de novos produtos ou para as estratégias de mercado. Toda inovação de impacto vai demandar muito ajuste, ou seja, muita inovação incremental. Falar em tipos de inovações nos ajuda a perceber que não é apenas o departamento de criação que precisa de criatividade, mas toda a empresa. O que muda é a necessidade do momento, da área e do setor.
Qual a melhor forma de as empresas estimularem os diferentes tipos de inovação?
A criatividade inovadora voltada para coisas é usualmente solicitada à cúpula, gerências, técnicos sênior e à área de T&D. É uma criatividade que pode ser estimulada. Quando o objetivo é redução de despesas ou melhoria no atendimento é um desperdício fixar-se na originalidade. A empresa se beneficiará com a eliminação de um prego ou uma mudança num texto. Neste caso, o trabalho em equipe se torna extremamente benéfico, pois o que se quer é uma maior amplitude de percepção e de idéias. Já as inovações incrementais voltadas para pessoas demandam determinação clara dos parâmetros para a criatividade, metas e motivação constante, como se faz com as equipes de vendas, e as inovações de impacto voltadas para o mercado se beneficiam, sobretudo, com o que Domenico de Masi chama de Ócio Criativo: estar longe da empresa, vendo exemplos de outras áreas e o comportamento do mercado.
Viu como é diferente? Agora imagine, por exemplo, o percurso de várias empresas de informática: elas tiveram início com alguma grande idéia e os gênios da criação eram supermimados. A fase posterior foi de inovação incremental, melhorias, adaptações ao mercado e assim por diante. Nessa fase, fizeram-se necessárias competências ligadas ao trabalho em equipe, negociação. Haja jogo de cintura!
E quanto ao pessimismo (ou baixo-astral, falta de motivação) dos funcionários, como as empresas devem lidar com isso, sem terrorismo e sem demagogia? E qual deve ser a postura do colaborador nessa situação?
Temos que entender que o otimismo está muito ligado à autoconfiança. Vivendo sob a ameaça de perder o emprego ou sob alguma outra forma de terrorismo, o profissional tende a acreditar menos em sua capacidade, o que o levará a usar o pessimismo para evitar as mudanças. A demagogia também tem o mesmo efeito, pois ela é sentida ou descoberta facilmente. Falta às empresas e aos próprios funcionários perceberem o óbvio: o grosso do downsizing já passou. Quem está empregado hoje em dia é porque é bom, sabe se adequar a diferentes momentos e porque está trabalhando numa boa empresa, que já se redefiniu estrategicamente. Não seria ótimo se o relacionamento entre a empresa e os colaboradores partisse desta premissa?
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