Era uma grande distribuidora, empresa familiar, que buscava melhorar sua operação. Pediam criatividade e comprometimento de seus colaboradores, porém parecia que quanto mais o grupo de gerentes era estimulado, mais se distanciava do objetivo. Naquele dia eu estava sendo apresentado ao novo Gerente de Recursos Humanos: o terceiro em um ano e meio.
Eu fora chamado para um trabalho de coaching organizacional. Havia combinado almoçar com o Diretor geral e patriarca da família para fazermos uma análise da situação e traçarmos um plano de trabalho.
Podemos aliar nossas experiências, você cuida do planejamento do pessoal e eu da forma de tratá-los. Empregado necessita de rédeas curtas, eu construí esta empresa com mão de ferro. Foi esta a primeira frase do Patriarca assim que nos acomodamos no restaurante.
Na primeira frase a causa do problema já estava praticamente identificada...
Quando pessoas são gerenciadas como coisas deixam de acreditar que ser líder é uma escolha.
Não existe a função LIDER. Muitas empresas erroneamente designam a função de gestor como líder disto ou daquilo. Seus funcionários passam a entender que Liderança é algo que deve ser outorgado, portanto não se vêem como líderes. Ser Líder é uma escolha pessoal e a Liderança deve ser conquistada.
Quando a liderança é imposta, de modo funcional se inicia um circulo vicioso que não é salutar para a organização: Os colaboradores não entendem que podem exercer a liderança, pois acham que liderança é só para quem está no comando. Não exercendo a liderança, passam a ser meros coadjuvantes sem idéias próprias e atuam sem entusiasmo. Por não terem entusiasmo não vestem a camisa da empresa e consentem em serem tratados como coisas, que por sua vez...
Depois de implantado o círculo vicioso ele se transforma em co-dependência porque uma das partes tornando-se fraca reforça e justifica o comportamento da outra.
Os gestores exercem um controle excessivo sobre a equipe o que estimula comportamentos que requerem cada vez mais controle, pois cada um passa a ter uma atuação restrita naquilo que lhe é solicitado, não procurando colocar-se como peça importante do processo, pois sem opinião própria não atuam em benefício da empresa.
Como não entendem que a liderança, a autonomia e a criatividade podem ser exercidas tornam-se dependentes de seus gestores, institucionalizando a co-dependência até o ponto em que ninguém mais assume responsabilidades e com o passar do tempo, gestores e colaboradores formam um pacto inconsciente, abrindo mão da autonomia acreditando que os outros é que devem mudar e agir.
Não percebem que caíram em uma armadilha e aqueles que são novos na organização têm que adotar uma em duas situações: lutar contra tudo e contra todos ou fazer parte do pacto inconsciente.
Quando este círculo vicioso e esta co-dependência estão instalados em uma organização o processo de reversão é lento e muito difícil, necessitando talvez algumas ações drásticas. Talvez seja mais fácil mudar comportamentos em toda uma organização que explicar aos mais antigos que estamos vivendo sob um novo paradigma organizacional e que a gestão de pessoas que utilizamos no século passado é anacrônica para os dias de hoje.
cleyson@gmail.com
| DESTAQUES | |