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Coluna › Auto Gestão

Atualizado em 23 de fevereiro de 2008, às 18h58

O homem das meias brancas

Por Scher Soares

Certa vez, indo a uma reunião com um cliente nosso da área de consultoria, optei por pedir que um dos estagiários da área me acompanhasse para efeito de obter maior compreensão a respeito do cliente e do trabalho que estava por vir.

Como se tratava de um cliente que ficava um pouco longe, marquei de encontrar com este estagiário em uma padaria a caminho; haveria tempo para um café e então seguiríamos para a reunião. Ocorre, que ao adentrar no carro, o estagiário deixou revelar um reluzente par de meias brancas contrastando com os sapatos pretos e terno preto que o mesmo utilizava. Confesso que em um primeiro instante fiquei bem surpreso, mas em seguida concentrei minha atenção em explicar que aquela não era uma combinação adequada, externei minha opinião a respeito do papel das meias na composição da roupa frisando os diversos papéis que as mesmas cumprem quando da sua utilização.

Ao longo de toda esta retórica, meu ouvinte atento e aparentemente grato pelas informações, confessou que de fato pouco conhecia a respeito do assunto e tampouco imaginava que um par de meias brancas com seu “facho de luz” entre os sapatos e calça pretos pudesse de fato atrair a atenção dos seus interlocutores para tal descuido de etiqueta. Comprometeu-se comigo a evitar cruzar as pernas durante a reunião, de forma a minimizar o impacto das meias e seguimos com a afirmação convicta do mesmo de que se tratava de uma lição aprendida e um equívoco que nunca mais seria cometido. Contente com o resultado daquele episódio e confortável por perceber que o estagiário havia compreendido, seguimos adiante para mais um bom negócio.

A reunião transcorreu naturalmente, sem perdas de foco em função do par de meias brancas e meu parceiro cumpriu com sua promessa de evitar cruzar as pernas e iluminar a sala com seu “facho de luz”.
Saímos da reunião e voltamos ao escritório comentando algumas histórias semelhantes e rindo do assunto.

Os dias se passaram e duas semanas depois tivemos que voltar ao mesmo cliente para outra reunião; bem conhecida como reunião de alinhamento. Novamente marquei com o mesmo estagiário na mesma padaria a caminho do cliente, aonde nos serviríamos de um café enquanto iniciávamos a discussão sobre as perspectivas e condutas para a reunião. Ocorre que novamente ao adentrar no carro, aquele “facho de luz” chamou minha atenção e antes que eu me manifestasse, ouvi a seguinte justificativa:

“sei que você vai comentar sobre as minhas meias brancas com o terno e sapatos pretos, mas eu tenho poucas meias pretas e agora pela manhã é que percebi que elas não estão limpas, então, não teve jeito”.

De fato, se existe algo que não aprecio são justificativas; portanto apenas pedi que aquilo não mais se repetisse e afirmei que depois falaríamos sobre o assunto, procurando extrais algumas lições e aprendizados.

Algum tempo depois, em conversa com este estagiário, ouvindo-o e se fazendo ouvir a respeito do exercício da função, experiências, desempenho e aprendizado, resgatei o episódio “Meias Brancas II” e iniciamos uma navegação sobre as oportunidades que o episódio representava. Chegamos a conclusões interessantes como: após o primeiro episódio, ele poderia ter analisado sua gaveta de meias e ao perceber a reduzida quantidade de meias pretas, comprar algumas; outra questão, é que este estagiário, no primeiro episódio se comprometeu com um resultado que de fato acabou não sendo entregue posteriormente; ainda, havia espaço na noite anterior à reunião que resultou no segundo episódio, para uma análise da gaveta de meias e mediante a constatação de que não haviam meias pretas limpas, ou o mesmo se dedicava a lavar um par de meias pretas ou mesmo se dirigia a um shopping para efetuar uma compra; outra questão, é que o fato de descobrir a ausência das meias pretas apenas pela manhã do dia do compromisso, pode significar descuido no planejamento e pouca atenção aos detalhes; finalmente, a recorrência do episódio demonstra a perda de oportunidade ao permitir que uma mesma “não conformidade” aconteça de forma repetida, retratando um baixo nível de conexão e retenção do aprendizado resultantes do primeiro episódio.

Pode parecer exagerado, mas de fato situações como estas permitem que se observe o comportamento por detrás dos fatos e o lastro composto por valores, padrões mentais e modelos culturais que impulsionam nossos comportamentos, decisões e ações.

O estagiário em questão não está mais conosco, mas recentemente o encontrei em um restaurante e pude ouvir do mesmo, bons comentários a nosso respeito e menções ao volume de aprendizado que ele teve acesso enquanto esteve conosco.
Certamente, é louvável e até gratificante ouvir tudo isso, mas, naquele mesmo dia, pude constatar que ele estava de terno e sapatos pretos, porém, de meias brancas!

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